sexta-feira, 2 de março de 2012

Tom Cruise é o diretor de "Uma escola atrapalhada"

Não haviam computadores e cadeiras suficientes naquela sala lotada de imigrantes. Ao invés de me sentir privilegiada por usufruir desses dois recursos, senti-me profundamente incomodada. Aquele professor (que é portador de um tipo de 'lesera' diagnosticada mas pouco comentada) falava sobre o sistema de saúde na Suécia e nos recomendava escrever sobre o nosso país e como trabalham nossos médicos, no computador. Que computador vai usar aquela senhora muçulmana que pegou uma cadeira de outra sala e mantém o caderno apoiado na perna? O cheiro do ambiente era desagradável. Uns não tomam banho e outros tomam banho de curry prá ir para a escola. (só pode ser!) E tem os que não sabem o que é uma escova de dentes também. A sala definitivamente não comportava todas aquelas pessoas e seus respectivos odores. Aproveitei o assunto abordado em sala e pedi licença - "preciso tomar um ar e um comprimido prá dor de cabeça" - e rapidamente minha cadeira e meu computador foram ocupados por outro aluno. O professor lesado achou graça da coincidência e eu reforcei minhas impressões de quão patético ele é.

PS - Não digo isso à toa. Em 2010 assisti uma aula com ele. Na ocasião ele teve uma crise de piti e foi grosseiro com uma aluna que não falava inglês. Eu a defendi e depois disso, ele passou a ter medo de mim (como dizem por aí). Eu não tenho talento prá defender desconhecidos, mas naquele caso, foi necessário.

Saí da sala lembrando de quando comecei o curso em agosto/2011 e do recado do diretor: "Estou à disposição na minha sala para quando vocês quiserem conversar!" Infelizmente ele não estava, mas encontrei uma professora que conheço e fui a seu gabinete. Ela me pediu prá esperar, pois logo o diretor voltaria. E ele voltou. Ainda ofegante após subir os lances de escada, eu o esperava como uma estátua do Louvre e disse que precisava conversar. Falar em inglês quando estamos aprendendo sueco é algo pouco tolerado, mas ele sacou logo que eu estava falando sério. Ele tinha outras tarefas, mas imediatamente me levou a sua sala. O diretor é uns 3 anos mais velho do que eu. É bonitão, lembra o Tom Cruise. Quando me deu passagem e puxou a cadeira pra eu sentar, fiquei até sem graça, porque cá entre nós, cavalheirismo não é o forte dos suecos. Sentou de frente prá mim e me soltou um olhar de "Top Gun" que eu quase desconcentrei. Lembrei do cheiro da sala de aula e voltei ao foco.

- Hoje é meu primeiro dia de aula no novo grupo e em 20 minutos, eu percebi que foi um erro mudar de turma. Eu quero retroceder.
- Como assim? Você não fez a prova?
- Sim.
- Deixa eu procurar seu histórico.... Ei, você teve 6 erros na redação de 22 linhas. Eu não posso voltar atrás. Além disso, as aulas com a antiga turma serão tediosas para você.
- Então existe alguma chance de dividir aquele grupo que eu estou, onde não tem cadeiras e computadores suficientes?
- Impossível.

Nesse momento, de Tom Cruise ele se transformou no cara do "Rain Man".

- Veja só, nem sempre nós temos 2 professores disponíveis.
- Ok. Então eu vou desistir do curso.
- Eu posso saber o por quê?
- Porque a sala está com superlotação. Muita gente prá pouco ar. Como estamos no inverno e as janelas estão fechadas, ficamos muito vulneráveis aos vírus. Acho inapropriado um grupo tão grande, pois o rendimento torna-se baixo. Precisamos de espaço. Eu não me sinto bem vendo outros alunos sem cadeira, além disso, 'curry' não faz parte da culinária do meu país, logo, esse cheiro me enjoa.

Sem graça, ele quis dar uma de Jerry Maguire - "A grande virada" e ao mesmo tempo me mostrar "A cor do dinheiro":

- Onde você estudou inglês?
- Na Irlanda.
- E você pagava para estudar?
- Sim, quase 2 mil euros por semestre.
- Na Suécia o ensino é gratuito!!!
- Por isso é ruim?

Aquela conversa parecia uma "Entrevista com o vampiro" e ele percebeu que poderia se tornar um "Negócio Arriscado". Com a paciência do "Último Samurai" ele me pediu uma chance:

- Você só ficou 20 minutos na sala de aula. Vamos fazer o seguinte: volte amanhã! A professora é bem experiente e possui atividades mais dinâmicas. Nos dê uma semana e se encontrar outras alternativas, pode vir falar comigo novamente.

Quando saí de sua sala, descobri que cada aluno representa uma $ quantia $ para a escola e que, se eu saísse do curso, menos dinheiro entraria. Então eu soube que eu valia 50 mil coroas e resolvi dar a "A chance".

No dia seguinte, a nova professora se apresentou e apontou o dedo para mim: "Você é a brasileira?" E eu vi dezenas de pares de olhos fixados na minha pessoa. A pessoa que não queria nada além de uma aula bem aproveitada! Ela levou quase meia hora para terminar a chamada (e aqueles nomes complicados do Iraque, da Tailândia e do Escambau). Quando terminou, olhou prá mim e disse: "Nós temos 43 pessoas na lista. Hoje temos 28 em sala. Normalmente nem todos assistem aula juntos, mas quando tivermos uma superlotação, nós dividiremos a turma."

Aproveitei para perguntar: "Mas isso não era impossível?" Sim, mas ontem no fim da tarde tivemos uma reunião com o diretor e decidimos que em algumas ocasiões será preciso dividir o grupo. Minhas amigas olhavam para mim orgulhosas e eu só pensava que para criarem "A nova lei" precisava haver reclamação!

De fato, a professora daquele dia era uma profissional experiente que sabia "domar" o grupo. Eu sempre tive problemas com a sexta-feira, pois o curso acaba 16h30 e nesse horário, a maioria dos pais já pegaram os filhos na creche. Quando comecei o curso, disseram-me que ao passar de nível, minha aula terminaria mais cedo. Como isso não aconteceu, fui bater na sala de outra professora, com a qual já tive contato e que já fez alongamento comigo: "Professora, estive com o diretor e gostaria de frequentar suas aulas pela manhã na sexta-feira." Ao que ela responde: "Você é muito bem-vinda!"

Como eu já previa, sala fechada e lotada é ambiente fértil para proliferação de vírus. Existe uma grande chance de eu ter pego minha gripe em sala de aula. Fiquei um mês sem frequentar regularmente a sala de aula. Prá ser sincera, só ia nas sextas-feiras, cujo grupo é pequeno. Voltei para escola recentemente e aquela professora experiente me chamou para conversar (o horário já mudou de novo e eu nem sabia). Ela me disse que é bem natural dar uma desmotivada no curso, especialmente depois de 3 semanas doente. Ela me deu um livro de economia e o programa das próximas semanas, com páginas dos livros e as tarefas.

Eu voltei às aulas não por uma "Questão de Honra", e sim para provar a mim mesma que aprender sueco não pode ser uma "Missão Impossível". Já aconteceu tanta coisa depois que voltei, que o assunto daria outro post.

PS: As palavras entre aspas, itálico e negrito são títulos de filmes do Tom Cruise.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um mês para dois anos

Já estive mais melancólica com o fato da Beatriz estar deixando de ser um bebê. Ultimamente ela anda tão graciosa que eu começo a compreender esse processo natural de desenvolvimento e aceitando seu amadurecimento. Dia Primeiro de Abril ela completará dois anos. Não terá festa porque quem é mordido por cobra tem medo de salsicha, e ano passado nossa experiência não foi boa. (Bia ficou doente).

Não fazer festa é só um detalhe. Estou curtindo muito essa nova fase - ela está incrivelmente encantadora. Meu marido anda triste, porque eu sou a "mãe brava" que repreende quando necessário, e ao mesmo tempo sou a preferida! hahahahahah.... Ele fica fulo quando a Bia fica me escolhendo e eu fico inflada! :D

Hoje quero registrar os 23 meses da nossa menina:

Lembra do overall vermelhinho véio de guerra?

Ficou pequeno e foi substituído. Eu contei aqui no blog que, embora a etiqueta desse overall violeta seja da 3M, ele foi comprado no supermercado a preço de banana. Testei e aprovei. Atendeu minhas necessidades e é a prova de que coisa barata também presta.

Recentemente as professoras da creche disseram que preciso comprar um capacete de hóquei para a Beatriz e pediram pra eu tirar a foto desses dois que estavam lá brincando. Como a neve está derretendo, vou deixar pro próximo inverno. Tem tanto modelo que eu não sei qual é o mais adequado. Se alguém souber, palpite a vontade.

Estava indo para a creche empurrando o "pulka", aquele trenozinho da Bia. Ela começou a resmungar e eu não entendia. Daí ela apontava para a árvore e eu pensei: "Será que essa menina tá vendo coisas?" e não é que tava mesmo? No dia anterior ela deve ter jogado a fraldinha na rua (com o pai) e alguém pendurou na árvore! Depois da bota perdida (e encontrada), foi a vez da fralda.

Algumas pessoas me perguntaram o que tanto eu comprei naquele dia de promoção depois do Natal, afinal, disseram que 500 reais no Brasil não se compra muita roupa prá criança e como é que eu consegui a façanha de encher duas sacolas? Vale lembrar que, comprei roupa para mais de seis meses e com tamanhos de 3, 4 e cinco anos. Vou fazer uma conversão de cabeça rapidin dessas três peças prá quem perguntou: vestido amarelo e vestido de listas coloridas (uns 27 reais cada). Casaco branco - 42 reais.

Esse colete verde é para ser usado na primavera e no outono. Está grande porque é tamanho 5 anos. A blusinha por baixo (pink) é tamanho 4 anos. O sapatinho cinza também está grande. Resolvi provar antes guardar prá ter uma idéia (do meu exagero) :P

Depois de tanto tempo com uma sacola de mercado guardando seus pertences na escola, agora Beatriz tem sua primeira mochila. :) É da Peppa Pig, aquela porquinha pink do UK. Além do inglês, existem Dvd's da Peppa Pig em sueco, talvez tenha em português. PS - na história, ela tem um irmão que se chama George e quando eu estava no Brasil, eu ficava repetindo prá minha mãe "my little brother Geoooorge". Recentemente minha mãe me perguntou se eu já ia engravidar do George. Ela acreditou mesmo que esse seria o nome do meu próximo filho. :D

Como a Beatriz é a única morena da sala, encontramos uma forma de torná-la loira!

Essa foto foi tirada antes da consulta com a Tia Brida e meu marido ainda permitia que ela brincasse com seu telefone. PS - Esse é outro vestido comprado na liquidação do Natal. Tamanho 3 anos e já está servindo.

Depois dos conselhos da Tia Brida, a Beatriz ficou boa menina! :P E se perguntamos: "Você é boa menina Beatriz?" ela faz essa cara de santa aí ó. PS: Essa bonequinha é a Upsy Daisy, a qual eu conheci quando trabalhava como babá na Irlanda. É só perguntar onde ela está, que a Bia nos trás.

Outro vestido da liquidação. Também é tamanho 3 anos e já serve. Para quem estava curiosa e me perguntando o que eu tinha comprado, aí estão eles. Na minha opinião, até aqui na Escandinávia que o custo de vida é alto e os preços mais salgados, ainda assim, roupa e calçado infantil eu achei mais barato que no Brasil.

Esse foi o dia da recaída. Meu marido estava quase curado da gripe e resolveu ir brincar de dar "rabiada" na neve com a Bia. Ficou mais uma semana em casa tossindo! Minha experiência é: espere sarar completamente antes de tomar friagem, porque gripe de recaída é bem pior!

Eu quero explicar prá Beatriz o que é carnaval, porque eu já cheguei a pensar que carnaval era uma corda comprida que passava na rua e todo mundo ia pulando. As pessoas diziam "vamos pular o carnaval de rua" e só vinha a corda colorida na minha mente. :P
Na sexta-feira de carnaval, a Dani (mãe da Mikaela) veio me trazer um presente de aniversário e fizemos um "grito de carnaval" para as meninas.

Além de vê-las pulando, sambando e gritando...



Nós também brincamos de roda com elas.

Semana passada Beatriz falou "Pão". Mas eu insisto que, ela não falou "páum", nem "pón", com sotaque. Ela falou como nós, em som anasalado: PÃÃÃO. Peguei a câmera prá filmar, mas não deu tempo. Só consegui ela comendo de boca aberta.



Sabe essas mães que botam roupa de time de futebol no filho e tiram fotos? Quando moram fora então, dão aquela forçada pro miúdo fazer pose de Kaká. Ahhh eu não podia ficar de fora! :D

Uma das brincadeiras favoritas da Bia é "fingir". O mundo de faz de conta está começando e ela é uma ótima personagem - engana até os pais! Para chamar nossa atenção, ela repete com frequência a brincadeira de "cair sozinha".



Aquela antiga aula de aeróbica na academia ainda é sucesso na Suécia, e eu fui compelida pela minha chefe participar de algumas. Estou adorando. Está certo que já não se usa mais cabelo da Cyndi Lauper nem maiô da Cindy Crawford, mas a filha da Cíntia do blog usa polaina! :D


Beatriz Flashdance
Aproveito prá dizer que, essa bola grandona (bola suíça) é mesmo fantástica. Eu a uso na minha vida profissional há tempos, mas a experiência com a Beatriz está sendo cada vez mais oportuna. A bola tira o equilíbrio e é ótima para criar desafios com crianças. Super recomendo mamães!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Retorno à Tia Brida

Recentemente a amiga Lia escreveu mais um ótimo texto reflexivo e nos mencionou, aumentando com isso os acessos sobre os conselhos da Tia Brida - uma enfermeira que ajuda no pós-parto e em várias momentos da maternidade. Como suas férias se aproximam, tivemos um retorno para conversarmos sobre como temos lidado com suas dicas e perguntar mais um pouco:

1- De manhã, Beatriz acorda às vezes mal-humorada. Então ela se esquiva no canto da cozinha como protesto para trocar a fralda. Eu percebo que, quando explico que a fralda está suja, ela costuma colaborar. Estou no caminho certo? Ela me entende?

Tia Brida: Sim, esse é o caminho e cada vez será melhor, porque cada dia ela compreende mais e mais.

2- Aquela dica de pedir para que ela levasse a fralda suja até o lixo foi ótima. Ela aprendeu na primeira vez e agora, tem isso como sua tarefa. Leva a fralda, fecha o lixo e bate palmas.

3- Ela não quer beber nada de manhã. Só come pão com ricota. Eu fico preocupada, pois ela passa 12 horas dormindo e penso que precisa de líquido.

Tia Brida: Você já tentou suco, leite e água. Agora, tente o "Välling" (leite que ela toma antes de dormir). De preferência, ofereça no copo. Mas se notar que ela precisa da mamadeira, então você pode ceder e depois substituir pelo copo.

4- Ela costuma dar trabalho para escovar os dentes (porque quer escovar sozinha e só comer pasta). Atualmente eu venho explicando os motivos da escovação, abro a boca e assopro demonstrando que os dentes limpos deixam um hálito gostoso e ela solta uma baforada na minha cara, colaborando bem mais. No entanto, fazemos isso na sala, deitadas no sofá com o DVD ligado. Eu queria saber se....

Tia Brida: Sem problemas.

5- Quando volta da creche, ela sempre está com sede (por isso minha preocupação em beber algo pela manhã). Ela costuma comer uma fruta, um pedaço de queijo e às vezes faço vitamina. Normalmente ela não tem muito apetite para um jantar e também não insisto, pois temo que ela não beba o leite. Minha dúvida: é mais importante o jantar ou o leite antes de dormir?

Tia Brida: Sem problemas se às vezes ela não quiser um dos dois. O mais importante é ela comer a comida que você prepara e que a família esteja reunida. Entre 2 e 3 anos os bebês começam a se desinteressar do Välling antes de dormir. Isso já é esperado e normal. Se um dia o outro ela negar-se a jantar e querer só mesmo uma pêra e o leite antes de dormir, não precisa se preocupar, pois ela almoçou na creche, já teve uma refeição "pesada".

6- Nós brasileiros, tomamos banho diariamente (herança dos indígenas). Acontece que a pele da Beatriz começou a ficar toda áspera e cheia de bolinhas. Ficou parecendo como quando pegamos um jacaré na praia com uma prancha e a barriga raspa na areia. Passei creme, passei óleo, e não melhorou. A professora da creche me disse: "Eu soube que você dá banhos todos os dias na Bia!". Então ela me mostrou suas mãos ressecadas: "Eu lavo demais as minhas mãos. Olha o estado que elas estão."

Tia Brida: O inverno escandinavo é muito rigoroso para a pele dos bebês. Mesmo com óleos e cremes, ela continua ressecada. O banho de todos os dias tira o óleo natural que protege a pele. Eu recomendo você dar banhos intercalados, um dia sim e o outro não.

(Nós seguimos essa recomendação - e passo um pano molhado onde a fralda toca. A pele dela já melhorou bastante! Escuto dizer que outros bebês brasileiros (que moram em clima frio) tomam banho todos os dias, como se não o fizesse, seriam menos higiênicos. Ano passado, nós estivemos no Brasil grande parte do inverno e não tivemos ressecamento. Mas esse ano, a pele da Beatriz ficou péssima. Eu fico pensando se isso só acontece com ela ou se outras mães intercalam o dia do banho.)

7- Depois de jantar, brincar e colocar pijamas, ela toma o leite (välling) por volta das 18.30 no meu cólo. Tentei deixá-la tomar sozinha, mas não deu certo. Nesse momento, estamos no sofá da sala e eu coloco o DVD do Toquinho com as músicas Aquarela e Caderno, que são bem calmas. Isso é inadequado?

Tia Brida: Na hora do leite possivelmente ela procurará seu cólo ou o do pai. Ela quer carinho, quer conforto. Curta esse momento com ela, juntinhas. Na Suécia não recomendamos TV antes dos dois anos de idade, mas os pais não seguem nossas advertências. Se você sente que estão bem nesse processo, tudo bem, desde que não abusem.

8- Como já disse, ela reclama de vez em quando para tirar os pijamas e escovar os dentes, mas isso tem melhorado com as explicações que você sugeriu. A cada dia que argumento o "por quê" de nossas tarefas, sinto-me mais e mais compreendida. Porém, minha dúvida é: Escovar os dentes apenas duas vezes por dia (ao acordar e para dormir) é suficiente?

Tia Brida. Sim, é suficiente. Essa é a nossa recomendação.

9- Depois da escovação, eu entro no quarto escuro para fazê-la dormir. Intercalo essa tarefa com meu marido. Fico uns minutos com ela na poltrona e a coloco no berço. Hoje em dia eu a cubro com uma coberta fina e ela dorme sem travesseiro ainda. Às vezes preciso ficar 10 minutos na escuridão do quarto até que ela engate no sono. Às vezes só a cubro e saio do quarto direto. Minhas dúvidas são: 1) Devo introduzir o travesseiro? 2) Quando e como posso começar a tirar a chupeta?

Tia Brida: Recomendamos travesseiro até o quarto mês porque a cabeça de um RN é muito mole ainda. Depois não tem necessidade. Algumas mães começam a usar novamente aos 2 anos de idade, outras não. Se você quiser, pode começar a usá-lo. Não há regra. Quanto a chupeta, o mais rápido possível. Comece explicando que a chupeta é somente para a hora de dormir. Quando estiver brincando, evite deixá-la de chupeta. A tendência será ela desacostumar até que não precisará nem para dormir.

10- Beatriz anda fingindo um choro seco quando se sente contrariada. Eu falo firme e ela pára. Mas se a mimo, ela faz cena. Isso é um exemplo de manipulação? (Diz que não Tia Brida! Ela não faria isso comigo....)

Tia Brida: Sim. Em sueco isso se chama "gnäller". Quanto mais você der atenção, mais ela fará. Você deve explicar que tudo está bem. Que ela já comeu, trocou a fralda, bebeu água e a mamãe está ali com ela. Não há razão para aquele choro. Se ela prosseguir, pode dizer que "mamãe não gosta disso. Vamos parar." Quando ela estiver maior e falar, você poderá perguntar "por quê você está chorando?" e ela vai dizer.

11- Ela está despontando aquela fase de possessividade e quer o brinquedo do amigo. Eu não sei o que dizer e às vezes acho que Beatriz não entende meu português.

Tia Brida: Pelo que entendi, a Beatriz não entende seus comandos quando eles são relacionados a algo que ela não quer fazer. Percebeu que quando você diz "Beatriz quer comer?" ela entende, e quando você diz "Beatriz vamos escovar os dentes" ela se faz de desentendida? Os bebês são espertos e o fato da Beatriz não falar, não quer dizer que ela não entenda, mesmo sendo dois idiomas. Quando um amiguinho pegar um brinquedo dela você deve explicar: "Eu sei que o brinquedo é seu Beatriz, mas quando você for na casa do amigo, você brinca com o dele. Agora, deixe ele brincar com o seu."

12- E para atos mais violentos, como bater em alguém ou em nós, jogar um brinquedo longe, essas coisas?

Tia Brida: Sem rodeios você pode dizer: "Beatriz, isso não é bonito. Não é educado. Não faça isso que a mamãe não gosta." O vocabulário vai sendo introduzido e ela vai aprender. Com paciência e repetição, logo ela assimila que esse comportamento não é aceito. Mas você tem que explicar sempre.

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Eu resolvi compartilhar mais uma vez porque recebi um tanto de emails e fiquei feliz em tomar conhecimento de quantas pessoas leem e se identificam com minhas dúvidas. Contei para a Tia Brida que postei seus conselhos e também sobre os comentários. Ela ficou vermelha, sorriu e mandou um abraço para cada um. Depois das férias, ela virá almoçar comigo. Vou preparar um prato brasileiro e aceito sugestões do que servir. Se der, farei uma foto com ela e postarei aqui no blog.

Talvez eu subjulgasse esses tipos de conselhos em outra época. Criar um filho é uma tarefa mais complexa do que eu pensava. Estou percebendo através dos experimentos e das reações da Beatriz, que cada dica teve seu valor!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lar doce Lar

Foi um dos dias mais frios de 2010. Grávida de 8 meses, só me cabia uma calça de malha cinza com ribana elastana na barriga. Nos pés, vestia um tênis preto com os cadarços frouxos, pois estes não se encontravam mais para amarrar (pé-de-pão-crescido!). Em andar de pata, subi os 4 degraus que fronteiam a entrada da casa com a ajuda do corrimão. Dava passos tão lentos quanto meu vizinho de 88 anos. O caminhão com a mobília do antigo morador encalhou na neve e meu primo, o corajoso, astuto e sensível Reinier, foi lá empurrar sob uma nevasca de 25 graus negativos. No dia seguinte foi a vez do caminhão da Ikea encalhar e meu primo ajudou de novo. Foi um ano de muita neve e ficamos assustados em ter que limpar a passagem todos os dias.

Antes porém, passamos na imobiliária para assinarmos o contrato final (como casada, eu precisava estar presente). Durante o trajeto de 400 metros a céu aberto a partir da estação de trem, senti meus joelhos que não estavam cobertos pelo casaco, congelarem. Meus movimentos ficaram rígidos, parei e olhei para meu casaco todo branco de neve. Eu tinha medo de cair, escorregar e sentia dores. Acho que foi o dia que mais senti frio na vida!

Eu mal podia acreditar que depois de quase 30 casas (sendo 3 apartamentos), conseguíamos finalmente um ninho para a Beatriz nascer. Conseguir moradia em Estocolmo, não é tarefa fácil. Existe uma burocracia absurda com relação a aluguéis, fila de espera imensa e muita taxa para sacar dinheiro do Brasil.

Generosamente, o antigo morador nos deixou um sofá para me sentar, pois não tínhamos sequer uma cadeira. No primeiro dia, ficamos apenas a luz de velas. Não sabíamos usar todos os botões e utensílios que a casa dispusera, e por isso nossa primeira conta de aquecimento girou em torno de 8000 coroas - um absurdo. Pedimos verificação da conta duas vezes e estava certo. Nossa falta de conhecimento foi sanada por um livro de instruções enviada pela cia de energia. Dicas de como economizar energia elétrica e aquecimento foram super bem-vindas.

Quando estávamos na reta final, ficamos entre duas casas, ambas amarelas. A outra tinha dois andares e embora mais barata, precisava de reparos. Alguma coisa me dizia que eu precisava mudar para uma casa pronta, pois reforma com recém-nascido parece não ser uma boa combinação. Eu vim visitar essa casa pela primeira vez sozinha, no dia do aniversário de casamento. Lembro da corretora dizer "é seu presente de casamento!" e eu só pensava: "eu só quero um canto pra minha filha nascer!" A casa tinha sido toda reformada, pois a ex-moradora é decoradora. Ela colocou azulejo da África no banheiro e piso da Polônia, de forma que nossa casa não tem exatamente os padrões suecos. E quando eu tomo banho, me imagino num safari... :D

Com os dias aprendemos que não existe caminhão de lixo que passe na nossa casa. Tudo deve ser separado e existem locais apropriados para depositarmos nossos detritos e recicláveis. A limpeza da área comum do condomínio (bancos, praças, parquinhos e calçadas) possuem manutenção coletiva, feita pelos próprios moradores. Quem não ajuda, paga uma taxa (conforme já contei aqui!)

No verão, fizemos alguns reparos do lado de fora que excederam nosso planejamento. Reformar a casa custa muito aqui na Suécia. Por mais que existe uma ajuda do governo que paga uma boa parte da mão de obra (sim, isso existe aqui!), nós achamos grande parte do material de construção bem caro. Essa ajuda do governo é uma forma de incentivo para que os carpinteiros e outros profissionais dessa área, paguem corretamente suas taxas, pois existem muitas pessoas que contratam carpinteiros "no preto", ou seja, sem pagar os impostos. Nós pintamos a casa, trocamos algumas madeiras do "storage" (depósito) e colocamos um portão baixo para a Beatriz não fugir.

Desde quando pensamos em morar na Europa pela primeira vez, em 2007, imaginamos viver exatamente onde vivemos hoje: em uma casa, afastada do centro da cidade e com bastante segurança para nossa filha brincar. Parte dessa idealização eu acho que veio de nossa viagem a Estocolmo quando ainda morávamos no Brasil. Nos hospedamos em um subúrbio do lado Sul da cidade e ficamos encantados com as "casinhas de boneca".

Existem muitas pessoas que preferem viver no centro da cidade e eu entendo que essa decisão é bem pessoal. Quando digo onde moramos a um sueco de outro bairro, ele logo diz: "ah! seu bairro é um lugar que tem bastante natureza!". Essa definição pode ter interpretações como sítio, subúrbio, longe, etc... Para outros pode ser o sinônimo de qualidade de vida, bem-estar, tranquilidade... O fato é que, uma vez perguntei ao meu marido: "se sairmos daqui, onde você queria morar?" e ele respondeu: "ah, eu queria morar no condomínio vizinho, aquele que fica ainda mais perto do lago e da floresta!" (tem uma casa que não tem muro entre o jardim e a floresta! :D )

Ontem completamos dois anos morando no lado norte de Estocolmo. Um bairro pequeno que não tem shopping nem Mcdonald's. Nosso condomínio tem 40 casas, três parques, um campo com árvores e várias calçadas onde não podem transitar carros. Há cinco minutos caminhando, temos um lago e uma floresta onde colhemos frutas vermelhas no verão, mas há os que colhem cogumelos no outono.

Um dos maiores prazeres de morar aqui é poder andar de bicicleta e fazer atividades ao ar-livre com minha filha. Eu gosto do sossego e da tranquilidade. Já me disseram que isso é de raiz, porque sou uma autêntica caipira, nascida e criada no interior. Mas eu penso que isso é mais uma preferência pessoal, especialmente com a condição que vivemos - filhos pequenos. Como o bairro é pequeno, o atendimento da "coisa pública" costuma ser rápido, como enfermeira, médico e conversas com o diretor da escola. Beatriz estuda em uma das menores creches e hoje em dia, eu sou chamada de "Beatriz's Mamma" por muitos desconhecidos. Esses dias atendi um taxista e ele disse que fez uma corrida para um amigo meu do Congo. Fiquei intrigada e só depois de muito tempo que captei. Ele falava do "Seu Jorge", aquele que estudava comigo em dezembro e eu falei dele AQUI!

O mercado grande fica a 5 minutos de carro. O posto de gasolina, 3. A farmácia, fica no centrinho, onde tem loja de bebidas, clínica (Tia Brida), uma loja de roupas femininas, minha escola e a estação de trem. Às vezes vou no clube que fica há uns 10 minutos de carro. É uma forma barata e agradável de passar os dias de inverno. A biblioteca fica há 3 minutos caminhando e a bibliotecária é minha amiga desde que chegamos aqui.

Ontem completamos 2 anos morando na nossa casa, aquilo que podemos chamar de "lar-doce-lar". Eu posso morar em muitas casas, mas essa daqui será sempre muito especial, pois foi o ninho da Beatriz. Entre tantos erros e acertos nessa vida de brasileiros no exterior, acho que tivemos sorte com o ninho. Apesar do trabalho que despende a manutenção de uma casa, estamos bem e nada nos falta. Nós não tenho todos os móveis e aquela decoração caprichada, mas temos sossego e isso, nem a Ikea vende!

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Em tempo: Depois de escrever esse post, encontrei o que fiz assim que nos mudamos. E prá minha surpresa, naquela época eu também usei "lar-doce-lar" para descrevê-lo. O post é esse aqui e me deu uma saudaaaade!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Napoleão e o FonoaudiólogO

Eu queria só falar sobre esse assunto quando terminasse de ler o livro, mas não aguento esperar. Estive na rua "Västerlånggatan" no dia do meu aniversário porque estou lendo o diário de Desirée, a primeira namorada de Napoleão. Nesse momento estou na parte em que ele deu um golpe de Estado. Ela já se encontra casada com Bernadotte, o qual torna-se o futuro Rei da Suécia - foi por isso que peguei o livro prá ler :P. O fato é que, eu sempre gostei de estudar a Revolução Francesa (e o que veio depois dela). Foram as questões dessa parte da História que me salvaram no vestibular. Aquela coisa de Mar Morto, Mar Vivo, Maomé, maomenos, nunca dominei. Assim, quase todas as noites, desde a véspera do meu aniversário, sou transportada para o século 18 enquanto leio. Abro o google com fotos dos principais personagens e viajo na História. As impressões daquela época passaram a residir na minha memória também durante o dia, até que.... triiiiiiimmmm:

- Hello!
- Olá! É a senhora Cíntia? (com um leve sotaque do português de Portugal)
- Yes.... ops... Sim, quem fala?
- Is there any problem if we talk in English? (Existe algum problema se falarmos em inglês?)
Ignorei a pergunta e continuei em português.
- Sim, o senhor deve ser o tradutor que eu solicitei para a reunião da creche. Pois não?
- Hã? Não senhora. Na verdade eu sou fonoaudiólogo.
Fiquei surpresa e ao mesmo tempo, reconhecia aquela voz.
- Ah sim. Eu pensei que seria umA fonoaudiólogA. Nunca vi um fonoaudiólogO! Mas... Ei! Você fala português!!!! E muito bem! Que ótimo!
- Sim... (risos)... Muito obrigado. Eu sou sueco mas vivi 18 meses em Coimbra.
Então me lembrei (com certo ar de comparação) que moro há 30 meses em Estocolmo e só sei dizer Hej! Hej! em sueco! (Hej! significa Oi!)
- Como vai Beatriz?

E assim continuamos conversando em português e ele devia ter a tela com seus dados, pois sabia muito sobre ela. (já disse aqui no blog que o sistema de saúde é todo conectado e os profissionais de várias áreas normalmente tem acesso a "ficha" do paciente quando digitam seu "personnummer" - número pessoal). Eu sei o número da Beatriz decorado, mas não sei o meu. :( Durante nossa conversa, percebi sua educação, frases muito bem elaboradas, um gentleman. E aquela voz... aquela voz... de quem era aquela voz? Bom, eu acredito que ele tenha aproximadamente 50 anos, mas a imagem que tive em todo momento foi a de... Napoleão Bonaparte! Isso mesmo. Ele tem a voz de um Monsenior do século XVIII. Ele me ofereceu duas opções de consultas: uma em um hospital próximo a nossa casa e outra com ele, em uma clínica distante. Claro que eu o escolhi, mesmo sendo mais longe!!! Ontem abri com satisfação a carta endereçada a Beatriz que ele nos remeteu, toda em português. É sempre bem difícil tanto para mim quanto para meu marido quando as correspondências chegam em sueco e não sabemos ler (ou apenas deduzimos parte dela). Na carta existe um cabeçário de boas vindas, três dicas de como chegarmos lá (de carro, trem ou ônibus), um mapa (isso mesmo, um mapa impresso!), seus dados profissionais e como será a nossa sessão. A consulta que dura 50 minutos não é paga, mas caso nós faltemos, precisamos pagar 100 coroas (quase 30 reais). Sinceramente, já estou ansiosa para o encontro com Napoleão! (ops... com o fonoaudiólogo da Beatriz!) Em todo caso, acho que vou com meu vestido de "mademoiselle". hihihihihi


P.S. - quem conseguiu a consulta com o fonoaudiólogo que fala português, foi nossa querida Tia Brida!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Oh coitado! Oh coitada!

Eu fui criada em uma sociedade confusa. Primeiro porque as pessoas além de não ajudarem alguém com problemas, elas logo resumem o caos a uma expressão: "Oh! Coitado!" E pronto. Como sabemos existem muitos tipos de 'coitados'. Certa vez li um livro (que não lembro o nome), onde uma senhora encontrava-se enferma e sob cuidados da família. O médico foi visitá-la e disse: "Que bom, minha senhora! Nós retiraremos seu medicamento porque seu organismo está reagindo muito bem e logo sua vida voltará ao normal!" Surpresa, ela respondeu: "Como assim? Eu não estou boa ainda... cof! cof! cof! Preciso de remédios e dos cuidados dos meus familiares. Assim eles vão me abandonar." Como sabemos existem muitas pessoas no mundo como essa senhora. Pessoas que estão aptas a seguir a vida adiante, mas não querem. Parecem aleijadas de iniciativa. Umas querem os cuidados, o zelo do outro, e outras parecem que gostam de ouvir "Oh! Coitado!". Oposta a esse sentimento de "pena", eu sempre me incomodo. Considero desconfortável conviver com dois tipos de pessoas:
1- A vitima: aquela que só reclama, não muda (e não quer mudar) de vida e não faz nada por si mesmo (quem dirá por outros). O tipo que nutre-se do sentimento de pena que os outros lhe compelem como se esse fosse uma vitamina, um fotificante. Aquela que precisa de um "Oh coitado!" por dia para continuar vivendo.
2- O distribuidor: aquele que convive com a vitima, "digna de pena" e há anos, diz "oh coitado!" sempre que necessário. De FATO, nunca moveu-se para uma verdadeira ajuda, aquela que seria eficaz na situação.

Quando eu tive depressão pós-parto (em 2010), liguei para uma grande amiga. Quando contei como me sentia, ela começou a chorar e não conseguiu me ajudar. Meses depois, estive no Brasil em 2011 e nos encontramos. Ela, que deixou a profissão pelos filhos, resolvera voltar a estudar outra área e me contou o quanto estava empolgada com o futuro. Então ela se desculpou por aquele fatídico dia. Quando eu a telefonei em 2010, seu carro havia sido roubado e o marido perdido o emprego. Eles estavam desesperados. Recentemente recebi um email dela (já em 2012). Agora, ela está estagiando em uma renomada empresa, o marido encontrou outro trabalho e o filho mais velho fez um teste e ganhou uma bolsa de estudos em um bom colégio. Analisando esse processo, eu percebo uma pessoa que não aceitou o "Oh! coitada!" e batalhou por dias melhores. Esforço, dedicação, auto-confiança e coragem, são virtudes definitivamente atrativas. E é esse tipo de exemplo que nos obriga a escolher um perfil que chega a ser 8 ou 80: ou você é coitado ou você não é!

Isso me faz lembrar um caso relativamente próximo. Uma senhora que vivia reclamando do marido: que ele que era chato, munheca, implicante e exigia as refeições na hora certa. Que agia com indiferença e não lhe via como mulher. Então, quando o encontrava, ela abria o sorriso, o chamava de meu amor e dizia que estava com saudades! Pior do que ela, eram as pessoas que sentiam pena dela. Encontramos esse tipo de perfil em cada esquina. A questão é: Deixamos uma criatura dessas entrar na nossa vida? Na nossa casa? Ela tem o direito de nos tirar uma tarde de sossego com suas lamúrias e depois presenciarmos reação tão contraditória? Como ajudá-la? Passar a mão na cabeça e dizer: "Oh coitada! Você é uma pessoa tão boooooaaaa...." e em seguida pegar a direção do salão da Creuza prá fofocar?!?

Com o tempo, esse jogo de pena dos outros se torna um vício. Fala-se que é "natural" ter pena de outra pessoa e comentar com dó seus problemas. E quando somos criados em uma sociedade cheia de "vitimas" e de "distribuidores de pena", não sabemos ao certo de onde isso surgiu. No entanto "aprendemos" a conviver com esse sentimento de vitimização aguda que floresce nas pessoas - especialmente em mulheres - embora eu já tenha encontrado muitos representantes da ala masculina incrivelmente dramáticos. Gente que só reclama, exagera que tudo de errado só acontece consigo, extrapola que seus problemas são maiores do que dos outros. Distorcem idéias, fatos, anulam memórias, inventam, contracenam suas mentiras e fantasias. No roteiro encaixam-se sempre no mesmo papel: A VÍTIMA, ou se preferir, "o coitado!". Esse termo pode ainda ficar pior quando acrescido um adjetivo: "pobre"! Já reparou que todo mundo vem se tornando "pobre coitado"?

Esse assunto entra num tema bem comentado na atualidade e que na minha época existia, mas não tinha nome: "bullying". Há alguns dias eu li um texto onde o autor comentava que se você não sofreu "bullying", é porque você o provocou. Embora não existia uma classificação no passado para esses tipos de agressões provocadas como "bullying", as consequências estão por aí e muitas pessoas da minha geração tiveram problemas em sua vida acadêmica e pessoal. Também há os que defendem a idéia de que essa coisa de "bullying" para qualquer chateação na escola anda sabotando o desenvolvimento das crianças, afinal, com tanta proteção elas não estão aprendendo como enfrentar as adversidades da vida. Em outras palavras, crescem meio "bundões". Esse é um assunto prá lá de complexo e que eu não me atrevo a abordar, mas sabemos que normalmente é uma situação para o rótulo: "Oh coitado!".

Ingratidão é e sempre será um comportamento inferior que sintetiza falta de educação. Mas o que dizer daquele que faz um mísero favor e depois cobra? 'O que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber.' - do contrário, não é caridade e sim, vaidade! Não foi assim que aprendemos? Porém não raro, picuinhas acontecem. Por exemplo: Primeiro a "vitima" pede um favor com bastante drama. Então o "distribuidor de pena" atende sua súplica. A vitima não agradece e o distribuidor anuncia o que fez e exige reconhecimento do favor prestado. Daí o papel de coitado passa para o distribuidor, que de repente, tornou-se a vitima da situação!

Eu estou escrevendo esse texto pensando em situações, relatos e pessoas que já cruzaram meu caminho - e que (a maioria) eu já varri da minha vida, obviamente. Quando eu tinha 13 anos, fui fazer um trabalho de grupo na casa de uma amiga. Éramos seis meninas e queríamos mais era conversar e aproveitar a chance de nos encontrarmos no domingo, do que fazer o tal trabalho. Então a mãe da menina, que era uma professora rígida e pessoa muito correta, nos disse: "Onde vocês querem chegar com esse comportamento?" Nos deu um sermão e disse que aquele trabalho era prá ser feito em 30 minutos. Disse que nós estávamos perdendo nosso tempo e blábláblá.... Fiquei horrorizada. Coitada da minha amiga. Que mãe mais mal-humorada que ela tinha. O tempo passou, eu e ela crescemos pelo mundo de forma separada. Fizemos coisas certas e coisas erradas, como era de se esperar. Até que um dia essa amiga me ligou contando que estava namorando e apaixonada por um rapaz, mas descobriu que ele tinha uma namorada. Ficamos conversando até de madrugada e eu lhe disse: "por que você não conversa com sua mãe sobre esse assunto?" Ela ficou assustada com a minha sugestão, mas aceitou ter um diálogo com ela. "Mãe, eu perdi meus princípios envolvendo-me com um rapaz compromissado." E a mãe respondera: "Filha, se você perdeu os seus princípios, você perdeu o mais importante!" A partir daquele dia elas se aproximaram e foi a mãe dela que a ajudou a sair da fossa e reencontrar-se com seus princípios.

A experiência da minha amiga me ensinou muito na época. Aquela mãe severa e cheia de imposições tornou-se um exemplo para mim. Tratei de estabecer certos princípios na minha vida e tornei-me "menos legal" por isso. Entre eles, encontra-se um que relaciona-se a esse post: "Coitado é filho de rato que nasce pelado!" Quando percebo uma pessoa com problemas e sinto-me útil para ajudá-la, regozijo-me com tal atitude. Mas quando não é da minha alçada, simplesmente me afasto. Esse hábito me levou a algumas constatações:

1- Colhemos o que platamos. As vitimas normalmente não gostam da verdade. Preferem viver no mundo da fantasia e são péssimas para assumirem sua responsabilidade no cenário desafortunado que se encontram.
2- Nutrindo com veneno: Aquela pessoa que deseja continuar recebendo remédio para que os outros cuidem dela - como aquela senhora - e adora ouvir um "Oh coitada!", piora a cada dia.
3- Sentimento desprezível: Desejar que os outros sintam pena de ti - como aquela que vitimiza-se quando está longe do marido, ou tantas outras que sentem sede de pena - remete a uma vulgaridade sem limites.
4- Tempo de cada um: Todos temos o livre arbítrio e eu acredito que algumas pessoas se levantam mais rápido do que outras. Alguns não querem ser ajudados e apreciam a condição estagnada que se encontram. O fato de ter sempre um "distribuidor de pena" pelas redondezas - que nada ajuda, mas compactua com a situação passando a mão na cabeça do vitimado - só retarda seu restabelecimento. Alguns levam semanas para saírem do papel de vitima, outros anos. Cada um tem seu tempo e não acho prudente interromper esse processo individual.
5- Existem muitas formas de ajudar uma pessoa. Algumas vezes ficar de longe é o melhor que podemos fazer!

A descongruência da sociedade confusa que eu fui criada distorceu o papel da real vitima. Durante muito tempo eu fui incapaz de identificar o que era "consequência de escolhas mal-feitas" assim como, o que era o " prazer em se vitimar". Não que eu fosse ingênua, mas talvez desatenta a certos melindres. E eu tive dó. Dó de um, dó de outro. E dá-lhe "oh coitado!" por aí. Sem querer eu fui uma "distribuidora de pena", que não ajudava mas "compartilhava da dor". Quantas vezes deparei-me com uma situação esdrúxula e tive uma reação omissa? Compactuei com o erro, não disse o que devia, passei a mão na cabeça e mantive-me ligada a uma pessoa com a qual eu não simpatizava. E pra quê?

Hoje quando encontro uma pessoa de posicionamento rígido como a mãe da minha amiga, sinto imediata admiração. O mundo está cheio de "coitados" e "distribuidores de pena" e é preciso muita atenção para não cair nessa armadilha.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Filha de pernambucano...

Não importa a neve...

... porque...

Filha de pernambucano...

.... pernambucana é!


Bom carnaval a todos!


P.S. - Obrigada a amiga Talita de Recife que nos enviou a fantasia!