Não haviam computadores e cadeiras suficientes naquela sala lotada de imigrantes. Ao invés de me sentir privilegiada por usufruir desses dois recursos, senti-me profundamente incomodada. Aquele professor (que é portador de um tipo de 'lesera' diagnosticada mas pouco comentada) falava sobre o sistema de saúde na Suécia e nos recomendava escrever sobre o nosso país e como trabalham nossos médicos, no computador. Que computador vai usar aquela senhora muçulmana que pegou uma cadeira de outra sala e mantém o caderno apoiado na perna? O cheiro do ambiente era desagradável. Uns não tomam banho e outros tomam banho de curry prá ir para a escola. (só pode ser!) E tem os que não sabem o que é uma escova de dentes também. A sala definitivamente não comportava todas aquelas pessoas e seus respectivos odores. Aproveitei o assunto abordado em sala e pedi licença - "preciso tomar um ar e um comprimido prá dor de cabeça" - e rapidamente minha cadeira e meu computador foram ocupados por outro aluno. O professor lesado achou graça da coincidência e eu reforcei minhas impressões de quão patético ele é.
PS - Não digo isso à toa. Em 2010 assisti uma aula com ele. Na ocasião ele teve uma crise de piti e foi grosseiro com uma aluna que não falava inglês. Eu a defendi e depois disso, ele passou a ter medo de mim (como dizem por aí). Eu não tenho talento prá defender desconhecidos, mas naquele caso, foi necessário.
Saí da sala lembrando de quando comecei o curso em agosto/2011 e do recado do diretor: "Estou à disposição na minha sala para quando vocês quiserem conversar!" Infelizmente ele não estava, mas encontrei uma professora que conheço e fui a seu gabinete. Ela me pediu prá esperar, pois logo o diretor voltaria. E ele voltou. Ainda ofegante após subir os lances de escada, eu o esperava como uma estátua do Louvre e disse que precisava conversar. Falar em inglês quando estamos aprendendo sueco é algo pouco tolerado, mas ele sacou logo que eu estava falando sério. Ele tinha outras tarefas, mas imediatamente me levou a sua sala. O diretor é uns 3 anos mais velho do que eu. É bonitão, lembra o Tom Cruise. Quando me deu passagem e puxou a cadeira pra eu sentar, fiquei até sem graça, porque cá entre nós, cavalheirismo não é o forte dos suecos. Sentou de frente prá mim e me soltou um olhar de "Top Gun" que eu quase desconcentrei. Lembrei do cheiro da sala de aula e voltei ao foco.
- Hoje é meu primeiro dia de aula no novo grupo e em 20 minutos, eu percebi que foi um erro mudar de turma. Eu quero retroceder.
- Como assim? Você não fez a prova?
- Sim.
- Deixa eu procurar seu histórico.... Ei, você teve 6 erros na redação de 22 linhas. Eu não posso voltar atrás. Além disso, as aulas com a antiga turma serão tediosas para você.
- Então existe alguma chance de dividir aquele grupo que eu estou, onde não tem cadeiras e computadores suficientes?
- Impossível.
Nesse momento, de Tom Cruise ele se transformou no cara do "Rain Man".
- Veja só, nem sempre nós temos 2 professores disponíveis.
- Ok. Então eu vou desistir do curso.
- Eu posso saber o por quê?
- Porque a sala está com superlotação. Muita gente prá pouco ar. Como estamos no inverno e as janelas estão fechadas, ficamos muito vulneráveis aos vírus. Acho inapropriado um grupo tão grande, pois o rendimento torna-se baixo. Precisamos de espaço. Eu não me sinto bem vendo outros alunos sem cadeira, além disso, 'curry' não faz parte da culinária do meu país, logo, esse cheiro me enjoa.
Sem graça, ele quis dar uma de Jerry Maguire - "A grande virada" e ao mesmo tempo me mostrar "A cor do dinheiro":
- Onde você estudou inglês?
- Na Irlanda.
- E você pagava para estudar?
- Sim, quase 2 mil euros por semestre.
- Na Suécia o ensino é gratuito!!!
- Por isso é ruim?
Aquela conversa parecia uma "Entrevista com o vampiro" e ele percebeu que poderia se tornar um "Negócio Arriscado". Com a paciência do "Último Samurai" ele me pediu uma chance:
- Você só ficou 20 minutos na sala de aula. Vamos fazer o seguinte: volte amanhã! A professora é bem experiente e possui atividades mais dinâmicas. Nos dê uma semana e se encontrar outras alternativas, pode vir falar comigo novamente.
Quando saí de sua sala, descobri que cada aluno representa uma $ quantia $ para a escola e que, se eu saísse do curso, menos dinheiro entraria. Então eu soube que eu valia 50 mil coroas e resolvi dar a "A chance".
No dia seguinte, a nova professora se apresentou e apontou o dedo para mim: "Você é a brasileira?" E eu vi dezenas de pares de olhos fixados na minha pessoa. A pessoa que não queria nada além de uma aula bem aproveitada! Ela levou quase meia hora para terminar a chamada (e aqueles nomes complicados do Iraque, da Tailândia e do Escambau). Quando terminou, olhou prá mim e disse: "Nós temos 43 pessoas na lista. Hoje temos 28 em sala. Normalmente nem todos assistem aula juntos, mas quando tivermos uma superlotação, nós dividiremos a turma."
Aproveitei para perguntar: "Mas isso não era impossível?" Sim, mas ontem no fim da tarde tivemos uma reunião com o diretor e decidimos que em algumas ocasiões será preciso dividir o grupo. Minhas amigas olhavam para mim orgulhosas e eu só pensava que para criarem "A nova lei" precisava haver reclamação!
De fato, a professora daquele dia era uma profissional experiente que sabia "domar" o grupo. Eu sempre tive problemas com a sexta-feira, pois o curso acaba 16h30 e nesse horário, a maioria dos pais já pegaram os filhos na creche. Quando comecei o curso, disseram-me que ao passar de nível, minha aula terminaria mais cedo. Como isso não aconteceu, fui bater na sala de outra professora, com a qual já tive contato e que já fez alongamento comigo: "Professora, estive com o diretor e gostaria de frequentar suas aulas pela manhã na sexta-feira." Ao que ela responde: "Você é muito bem-vinda!"
Como eu já previa, sala fechada e lotada é ambiente fértil para proliferação de vírus. Existe uma grande chance de eu ter pego minha gripe em sala de aula. Fiquei um mês sem frequentar regularmente a sala de aula. Prá ser sincera, só ia nas sextas-feiras, cujo grupo é pequeno. Voltei para escola recentemente e aquela professora experiente me chamou para conversar (o horário já mudou de novo e eu nem sabia). Ela me disse que é bem natural dar uma desmotivada no curso, especialmente depois de 3 semanas doente. Ela me deu um livro de economia e o programa das próximas semanas, com páginas dos livros e as tarefas.
Eu voltei às aulas não por uma "Questão de Honra", e sim para provar a mim mesma que aprender sueco não pode ser uma "Missão Impossível". Já aconteceu tanta coisa depois que voltei, que o assunto daria outro post.
PS: As palavras entre aspas, itálico e negrito são títulos de filmes do Tom Cruise.
PS - Não digo isso à toa. Em 2010 assisti uma aula com ele. Na ocasião ele teve uma crise de piti e foi grosseiro com uma aluna que não falava inglês. Eu a defendi e depois disso, ele passou a ter medo de mim (como dizem por aí). Eu não tenho talento prá defender desconhecidos, mas naquele caso, foi necessário.
Saí da sala lembrando de quando comecei o curso em agosto/2011 e do recado do diretor: "Estou à disposição na minha sala para quando vocês quiserem conversar!" Infelizmente ele não estava, mas encontrei uma professora que conheço e fui a seu gabinete. Ela me pediu prá esperar, pois logo o diretor voltaria. E ele voltou. Ainda ofegante após subir os lances de escada, eu o esperava como uma estátua do Louvre e disse que precisava conversar. Falar em inglês quando estamos aprendendo sueco é algo pouco tolerado, mas ele sacou logo que eu estava falando sério. Ele tinha outras tarefas, mas imediatamente me levou a sua sala. O diretor é uns 3 anos mais velho do que eu. É bonitão, lembra o Tom Cruise. Quando me deu passagem e puxou a cadeira pra eu sentar, fiquei até sem graça, porque cá entre nós, cavalheirismo não é o forte dos suecos. Sentou de frente prá mim e me soltou um olhar de "Top Gun" que eu quase desconcentrei. Lembrei do cheiro da sala de aula e voltei ao foco.
- Hoje é meu primeiro dia de aula no novo grupo e em 20 minutos, eu percebi que foi um erro mudar de turma. Eu quero retroceder.
- Como assim? Você não fez a prova?
- Sim.
- Deixa eu procurar seu histórico.... Ei, você teve 6 erros na redação de 22 linhas. Eu não posso voltar atrás. Além disso, as aulas com a antiga turma serão tediosas para você.
- Então existe alguma chance de dividir aquele grupo que eu estou, onde não tem cadeiras e computadores suficientes?
- Impossível.
Nesse momento, de Tom Cruise ele se transformou no cara do "Rain Man".
- Veja só, nem sempre nós temos 2 professores disponíveis.
- Ok. Então eu vou desistir do curso.
- Eu posso saber o por quê?
- Porque a sala está com superlotação. Muita gente prá pouco ar. Como estamos no inverno e as janelas estão fechadas, ficamos muito vulneráveis aos vírus. Acho inapropriado um grupo tão grande, pois o rendimento torna-se baixo. Precisamos de espaço. Eu não me sinto bem vendo outros alunos sem cadeira, além disso, 'curry' não faz parte da culinária do meu país, logo, esse cheiro me enjoa.
Sem graça, ele quis dar uma de Jerry Maguire - "A grande virada" e ao mesmo tempo me mostrar "A cor do dinheiro":
- Onde você estudou inglês?
- Na Irlanda.
- E você pagava para estudar?
- Sim, quase 2 mil euros por semestre.
- Na Suécia o ensino é gratuito!!!
- Por isso é ruim?
Aquela conversa parecia uma "Entrevista com o vampiro" e ele percebeu que poderia se tornar um "Negócio Arriscado". Com a paciência do "Último Samurai" ele me pediu uma chance:
- Você só ficou 20 minutos na sala de aula. Vamos fazer o seguinte: volte amanhã! A professora é bem experiente e possui atividades mais dinâmicas. Nos dê uma semana e se encontrar outras alternativas, pode vir falar comigo novamente.
Quando saí de sua sala, descobri que cada aluno representa uma $ quantia $ para a escola e que, se eu saísse do curso, menos dinheiro entraria. Então eu soube que eu valia 50 mil coroas e resolvi dar a "A chance".
No dia seguinte, a nova professora se apresentou e apontou o dedo para mim: "Você é a brasileira?" E eu vi dezenas de pares de olhos fixados na minha pessoa. A pessoa que não queria nada além de uma aula bem aproveitada! Ela levou quase meia hora para terminar a chamada (e aqueles nomes complicados do Iraque, da Tailândia e do Escambau). Quando terminou, olhou prá mim e disse: "Nós temos 43 pessoas na lista. Hoje temos 28 em sala. Normalmente nem todos assistem aula juntos, mas quando tivermos uma superlotação, nós dividiremos a turma."
Aproveitei para perguntar: "Mas isso não era impossível?" Sim, mas ontem no fim da tarde tivemos uma reunião com o diretor e decidimos que em algumas ocasiões será preciso dividir o grupo. Minhas amigas olhavam para mim orgulhosas e eu só pensava que para criarem "A nova lei" precisava haver reclamação!
De fato, a professora daquele dia era uma profissional experiente que sabia "domar" o grupo. Eu sempre tive problemas com a sexta-feira, pois o curso acaba 16h30 e nesse horário, a maioria dos pais já pegaram os filhos na creche. Quando comecei o curso, disseram-me que ao passar de nível, minha aula terminaria mais cedo. Como isso não aconteceu, fui bater na sala de outra professora, com a qual já tive contato e que já fez alongamento comigo: "Professora, estive com o diretor e gostaria de frequentar suas aulas pela manhã na sexta-feira." Ao que ela responde: "Você é muito bem-vinda!"
Como eu já previa, sala fechada e lotada é ambiente fértil para proliferação de vírus. Existe uma grande chance de eu ter pego minha gripe em sala de aula. Fiquei um mês sem frequentar regularmente a sala de aula. Prá ser sincera, só ia nas sextas-feiras, cujo grupo é pequeno. Voltei para escola recentemente e aquela professora experiente me chamou para conversar (o horário já mudou de novo e eu nem sabia). Ela me disse que é bem natural dar uma desmotivada no curso, especialmente depois de 3 semanas doente. Ela me deu um livro de economia e o programa das próximas semanas, com páginas dos livros e as tarefas.
Eu voltei às aulas não por uma "Questão de Honra", e sim para provar a mim mesma que aprender sueco não pode ser uma "Missão Impossível". Já aconteceu tanta coisa depois que voltei, que o assunto daria outro post.
PS: As palavras entre aspas, itálico e negrito são títulos de filmes do Tom Cruise.
